MEUS QUASE-TRINTA ANOS


Há cerca de dois anos escrevi esta crônica por ocasião do meu aniversário de 28 anos. Na época, eu tinha quase-trinta. Há pouco mais de um mês de completar de fato meus 30 anos de idade resolvi publicá-lo. Espero que se divirtam... e aguardem a próxima crônica: "Enfim Trinta"

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Quase-trinta
(Por Marcus Siqueira)

Certo dia, quando comemorávamos os aniversários de dois amigos que nasceram no mesmo mês surgiu uma dúvida inesperada: quem primeiro faria o discurso. Gentilmente, os aniversariantes sediam a vez um para o outro insistentemente. Para nosso desespero, não sabíamos que critério adotar para definir o primeiro dos oradores. Aquela situação já se tornava insustentável. Todos se entreolhavam e mais importante do que o repertório de cada aniversariante tornou-se o fim daquele inofensivo, porém, constrangedor impasse.


De súbito, brotou-me uma idéia, diria, salomônica. Confiantemente pedi a atenção de todos e indaguei: "Qual de vocês dois nasceu primeiro?". Parecia óbvia minha solução. Certamente, alguns dos participantes do dilema tenham zombado em suas mentes argüindo: "Por que ele não propôs isso antes?" Mas a solução não era tão simples e desprovida de significado quanto podia parecer.
Assim que o mais velho dos aniversariantes se apresentou, pude decretar: "Então fala você, pois é o que tem menos tempo de vida". Do tédio passamos automaticamente a um cenário de puro assombro. Chocados, todos me fitavam com os olhos arregalados. Aturdido, nosso amigo eleito mal conseguia pronunciar a primeira palavra de seu discurso. Também pudera, ele tinha acabado de receber a notícia de que os seus dias estavam contados, embora tivesse apenas vinte e poucos anos.
Obviamente, me divirto até hoje com este episódio. Como sempre, minha intenção não era assustar aqueles queridos amigos, mas, tão somente, diminuir a seriedade daquele momento, quebrar o gelo, e proporcionar boas risadas, depois do choque.
Mas "quem com ferro fere, com ferro será ferido". Embora esse ditado não se encaixe muito bem no contexto, serve-me de ponte para dizer que agora é a minha vez de ficar mais velho, estar mais próximo do fim, o momento de bater as botas, passar dessa para outra "melhor", me empirulitar (como diria o célebre Mussum).
Este ano faço 28 primaveras ou, por que não (melhor dizendo), verões, já que nasci em pleno fevereiro. Na realidade, pensando bem, 28 não é minha verdadeira idade, no fundo estou completando "quase-trinta". Não sei bem quando começa esse período que, por sua vez, só termina quando inicia outro quase: o quase-quarenta. Mas lembro-me quando, já em meus vinte-e-alguns-poucos anos, minha mãe "delicadamente" alertava: "Ê, já tá com quase trinta, hein!".
Então, sem nenhuma novidade, comemoro hoje cerca de uma década na mesma idade: meus quase-trinta anos. O mais interessante é que, embora já tenha me habituado a esta fase perene, sinto que, no fundo, ainda nem entrei nela. Absurdo como a mente humana nunca acompanha o corpo! Alguns ficam velhinhos com mentes de crianças. Outros envelhecem, definham presos em corpos que ainda não demonstraram nenhum sinal de senilidade.
Velho, eu? Nunca! Morreria negando. Decrépito, moribundo, desdentado, caduco, jamais assumiria tal condição. Afinal, é assim que se envelhece: contestando – apenas mais um sinal de uma etapa que dá início ao resto de nossas vidas: os quase-trinta. Quisera eu estar sendo apenas dramático ou pessimista! Acredite, este é o início do fim.
Hoje, por ironia, li uma matéria de revista que falava sobre o metabolismo do corpo humano. Não recordo muito bem o título da reportagem, mas era algo mais ou menos assim: "Marcus, passou dos trinta tá no sal". O jornalista, cumprindo sua importante função social – no exercício da educação e informação do público, dizia, em outras palavras, que as pessoas que passam dos trinta anos têm um metabolismo mais lento devido à diminuição (eufemismo para atrofiamento) da musculatura. E o mais legal: este é um processo que continua até o fim da vida.
Com medo? Nãaaao. Nada! Apenas constatações. Ponderações importantes sobre reações e comportamentos inerentes a tal idade. Na realidade, os quase-trinta são, sobretudo, um estado de espírito. Os quase-trintenos apresentam sinais praticamente patológicos variados e confusos, mas contundentes.
Esta semana, por exemplo, descobri que nunca gostei muito de maçãs. Sempre tive muita estima por esta fruta que manteve-se por cerca de três décadas entre as primeiras colocadas no ranking das Por Mim Mais Desejadas. Maluquice, mas nos quase-trinta você pode começar a entender que o que gosta realmente não é o que se convencionou que gostaria. Sabe como é difícil reconhecer isso? Maçãs podem ter mais significado do que se imagina.
Quando tirei minha carteira de motorista, um dos exames dos inúmeros a que fui submetido foi o chamado psicotécnico. Nunca imaginei que minhas aulas de Educação Artística poderiam me ajudar tanto algum dia. A psicóloga pediu que eu desenhasse alguma coisa. Sem nada na cabeça, resolvi esboçar uma pequena árvore – este foi a primeira coisa que aprendi a desenhar em minha vida. Caprichei na obra de arte. Fiz o caule, a copa e algumas bolinhas que presumia-se serem alguns frutos. Quando terminei, a examinadora astutamente olhou bem dentro dos meus olhos e perguntou: "Que frutas são essas?"
Naquela hora, respirei fundo e pensei bastante. Mergulhei naquele mundo fantástico criado por meu inconsciente. Em uma fração de segundos toda minha vida passou como um filme (talvez um curta) em minha cabeça. Mas, como já era de se esperar, não consegui nenhuma resposta. No fundo, ainda acho que os frutos tinham um valor puramente estético. Mas como eu sabia que a ausência de uma resposta satisfatória poderia me custar a fama de indeciso, inseguro, desequilibrado, e até mesmo minha carteira de motorista, respondi (pasme!): "São maçãs."
Você não entendeu? Isso mesmo, maçãs!! As mesmas maçãs com as quais decidi romper a menos de uma semana. Não pense que sou insensível. Sei que são muitos anos de história. Foram muitos momentos juntos, mas não consigo mais conviver com esta mentira. O meu relacionamento com as maçãs, confesso, não passa de uma grande farsa. Na verdade não tenho nada contra elas. Até espero que possamos conviver amigavelmente, mas não posso mais fingir. Resolvi dar um basta! Coisas de quase-trinta.
Não vou negar, estou mais chato, mais exigente, metódico e, como nunca, cheio de manias. Levo sim um copinho de água para o quarto na hora de dormir, ainda que eu não beba. Não misturo comidas e sempre como primeiro aquilo que acho menos gostoso. Hum, aquele bifinho remanescente no prato! No final, tudo parece ter mais sabor.
A vida também é assim. É como um bom vinho. Quanto mais o tempo passa, mais saboroso fica. Não importa se o metabolismo vai diminuir, porque a perícia aumenta, a capacidade de lidar com os problemas, as frustrações, os medos. É legal se conhecer mais e saber que não é o número de velas em cima de uma torta que determinam quanta vitalidade ainda temos.
No íntimo, sinto-me uma colcha de retalhos. Como se cada parte minha tivesse uma origem diferente. Cada qual mais ou menos desgastada, algumas furadas, remendadas, e outras ainda intactas, novinhas em folha. Não venha me dizer quantos anos tenho! Isto pouco me importa. E isto é um problema. Afinal, o dizer não importar é saber que importar importa àqueles que no fundo nunca se importaram. Ai, ai, meus quase-trinta!
Por que desejaria eu chegar até aqui sem temer o que vem pela frente? Por outro lado, de que me adiantaria admitir que a apreensão é inevitável quando se chega quase à metade de uma vida na Terra? Concluo que todas estas reflexões são imbecis. Que jamais me acrescentariam um dia sequer em minha existência. Que um minuto deste dia, o meu dia, seria deveres desperdiçado pensando se tenho ou não medo de assumir meus quase-trinta anos.
Esta é mais uma etapa do ciclo perfeito de Deus. Novas conquistas, desafios, vitórias que só seriam possíveis com meus quase-trinta. Glória a Deus! Ter quase-trinta anos, quase-quarenta ou quase-cinqüenta não é nenhum problema. O difícil seria acordar todos os dias distante do inefável cuidado do Criador e saber que, no fundo, se é quase-feliz
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